Vinhos Laranjas e o Estilo Ramato: O que é a “Quarta Cor” do Vinho?

Nos últimos anos, os vinhos laranjas ganharam espaço em cartas de restaurantes, lojas especializadas e conversas entre entusiastas. Para muitos, eles ainda soam como uma novidade ou uma tendência moderna. No entanto, a verdade é que esse estilo está longe de ser algo recente: trata-se de uma técnica antiga e tradicional, que desafia a forma como costumamos classificar os vinhos brancos.

Mais do que uma categoria exótica, os vinhos laranjas oferecem uma experiência sensorial única, combinando elementos típicos dos vinhos brancos e tintos em um mesmo líquido. Neste artigo, você vai entender o que define esse estilo, suas origens históricas, suas principais características sensoriais e como apreciá-lo da melhor forma.

O que são vinhos laranjas?

A maneira mais simples de definir os vinhos laranjas é a seguinte: são vinhos feitos com uvas brancas, mas vinificados como vinhos tintos.

A diferença fundamental está no processo de elaboração. Enquanto nos vinhos brancos tradicionais o mosto é separado das cascas quase imediatamente após a prensagem, nos vinhos laranjas o suco permanece em contato prolongado com as cascas durante a fermentação, um processo conhecido como maceração.

Esse detalhe técnico muda tudo.

As cascas das uvas concentram:

  • Pigmentos
  • Compostos fenólicos
  • Taninos
  • Parte importante da carga aromática

Ao manter esse contato, o vinho ganha cor, textura e estrutura, resultando em tonalidades que vão do dourado intenso ao âmbar e ao cobre — daí o nome “laranja”.

A lógica por trás da técnica: “um branco feito como tinto”

Nos vinhos tintos, a maceração com as cascas é essencial para extrair cor, taninos e estrutura. Nos vinhos laranjas, essa mesma lógica é aplicada a uvas brancas, algo que historicamente sempre existiu, mas foi sendo abandonado com a modernização da enologia.

O resultado não é um meio-termo, mas um estilo próprio, que foge das categorias clássicas de branco leve e refrescante.

Tipo de vinho Contato com as cascas Estrutura
Branco tradicional Quase inexistente Leve, sem taninos
Vinho laranja Prolongado Textura, taninos e complexidade
Tinto Prolongado Estrutura e corpo elevados

Essa técnica é o que confere aos vinhos laranjas sua identidade tão particular.

Ramato: a origem histórica dos vinhos laranjas

Muito antes do termo “vinho laranja” se popularizar, já existia um estilo tradicional que pode ser considerado seu precursor: o Ramato.

Originário da região de Friuli, no nordeste da Itália, o Ramato é elaborado principalmente a partir da uva Pinot Grigio. Essa variedade, apesar de ser classificada como branca, possui cascas naturalmente rosadas ou acobreadas, resultado de uma mutação do Pinot Noir.

Quando a Pinot Grigio passa por maceração prolongada, extrai-se uma cor intensa, muitas vezes tão profunda que o vinho pode lembrar um rosé escuro ou até um tinto muito claro. O próprio nome ramato significa “acobreado”, descrevendo perfeitamente sua aparência.

Esse estilo histórico ajuda a entender que os vinhos laranjas não são uma invenção recente, mas sim uma recuperação de práticas tradicionais, especialmente em regiões de clima mais fresco como Friuli.

Perfil sensorial dos vinhos laranjas

Degustar um vinho laranja é uma experiência bastante diferente daquela associada aos brancos clássicos.

Aromas em versões mais frescas

No nariz, o perfil aromático pode variar bastante de acordo com clima, uva e tempo de maceração. Em versões mais frescas, surgem notas de:

  • Cítricos
  • Maçã verde
  • Ervas

Aromas em versões mais maduras

Já em exemplares colhidos mais maduros ou com maior tempo de contato com as cascas, aparecem aromas mais profundos, como:

  • Damasco
  • Frutas secas
  • Amêndoas
  • Mel
  • Chá

Estrutura na boca

Na boca, a principal diferença está na presença de taninos, algo raro em vinhos brancos tradicionais. Esses taninos conferem sensação de textura, leve adstringência e maior “pegada” no paladar.

Apesar disso, muitos vinhos laranjas mantêm boa acidez, especialmente quando produzidos em regiões mais frias, o que impede que o vinho se torne pesado ou cansativo.

Vinhos laranjas e o movimento dos vinhos naturais

Não é coincidência que os vinhos laranjas estejam frequentemente associados ao universo dos vinhos naturais.

A técnica de maceração prolongada combina bem com uma filosofia de mínima intervenção, que busca respeitar ao máximo a uva e o terroir. Em muitos casos, esses vinhos são elaborados com:

  • Pouco ou nenhum uso de aditivos
  • Fermentações espontâneas
  • Baixa ou nenhuma filtração

Isso resulta em vinhos mais expressivos, às vezes imprevisíveis, frequentemente descritos como “vivos”. Essa conexão reforça a ideia de autenticidade e identidade territorial, mas também explica por que os vinhos laranjas podem causar estranhamento em quem espera um branco convencional.

Como servir vinhos laranjas

Por apresentarem mais estrutura e complexidade, os vinhos laranjas se beneficiam de um serviço um pouco diferente dos brancos clássicos.

Aspecto Recomendação
Temperatura Cerca de 10 °C a 12 °C
Taça Taça de branco maior ou até de tinto leve
Aeração Pode ajudar, especialmente em exemplares mais fechados

Servi-los excessivamente gelados pode esconder aromas e acentuar a sensação de taninos. Um pouco mais de temperatura permite que o vinho se expresse melhor.

Uma analogia para entender os vinhos laranjas

Uma boa forma de compreender esse estilo é pensar na diferença entre beber o suco de uma maçã e comer a fruta inteira, com casca.

O suco é limpo, direto e refrescante. Já a fruta inteira traz textura, leve amargor, aromas mais complexos e uma experiência mais completa. Os vinhos laranjas funcionam exatamente assim: ao incluir as cascas no processo, eles contam uma história mais profunda da uva.

Harmonizações ideais por estilo de prato

Culinária vegetariana e vegana

Vinhos laranjas são excelentes parceiros de pratos à base de vegetais, especialmente aqueles com textura e profundidade de sabor.

Funcionam muito bem com:

  • Cogumelos salteados ou grelhados
  • Abóbora assada, cenoura caramelizada, raízes em geral
  • Pratos com lentilhas, grão-de-bico ou feijão branco
  • Receitas com tahine, miso ou soja fermentada

A leve adstringência do vinho ajuda a “segurar” o prato, algo que muitos brancos não conseguem fazer.

Queijos e fermentados

Esse é um dos terrenos onde os vinhos laranjas mais brilham.

Tipo de alimento Por que funciona
Queijos de casca lavada A textura e o sal equilibram os taninos
Queijos curados Proteína e gordura suavizam a adstringência
Alimentos fermentados Afinidade aromática e de textura

Queijos como taleggio, reblochon e versões artesanais de média cura costumam criar combinações muito interessantes.

Peixes e frutos do mar (com preparo certo)

Embora não sejam ideais para preparos muito delicados, vinhos laranjas funcionam bem com peixes mais estruturados.

Experimente com:

  • Peixes grelhados ou defumados
  • Bacalhau, polvo e lula
  • Molhos à base de azeite, ervas ou tomate

A textura do vinho acompanha o prato sem “sumir” na boca.

Regra prática para acertar na harmonização

Se o prato:

  • Tem textura
  • Usa especiarias
  • Trabalha com ingredientes terrosos ou fermentados

… há grandes chances de um vinho laranja funcionar muito bem.

Conclusão

Os vinhos laranjas não são apenas uma moda passageira, mas a redescoberta de uma técnica ancestral que amplia as possibilidades do vinho branco. Com mais estrutura, textura e complexidade aromática, eles desafiam expectativas e convidam o consumidor a provar algo fora do padrão.

Para quem busca novas experiências, mais personalidade na taça e vinhos que dialogam com gastronomia de forma diferente, os vinhos laranjas são um convite irresistível — e uma prova de que, no mundo do vinho, o passado e o futuro muitas vezes se encontram no mesmo copo.

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Dúvidas frequentes

Vinhos laranjas são feitos com laranjas?

Não. Vinhos laranjas são feitos com uvas brancas, mas vinificados com maceração prolongada das cascas, o que confere a cor alaranjada ou âmbar.

Vinhos laranjas são vinhos brancos ou tintos?

Tecnicamente, são vinhos de uvas brancas, mas o método de produção se assemelha ao dos vinhos tintos. Por isso, eles formam uma categoria própria.

Todo vinho com cor alaranjada é um vinho laranja?

Não necessariamente. A cor sozinha não define o estilo; o que caracteriza o vinho laranja é o contato prolongado do mosto com as cascas durante a fermentação.

Vinhos laranjas têm taninos?

Sim. Os taninos vêm das cascas das uvas brancas e conferem mais textura e leve adstringência, algo incomum em vinhos brancos tradicionais.

Vinhos laranjas são sempre naturais?

Não obrigatoriamente. Muitos são produzidos dentro da filosofia dos vinhos naturais, mas o estilo em si não exige que o vinho seja natural.

Vinhos laranjas envelhecem bem?

Alguns sim. Graças à presença de taninos e compostos fenólicos, certos vinhos laranjas têm bom potencial de guarda, especialmente os mais estruturados.

Qual a temperatura ideal para servir vinhos laranjas?

Em geral, entre 10 °C e 12 °C. Temperaturas muito baixas podem esconder aromas e acentuar os taninos.

Com que tipo de comida os vinhos laranjas harmonizam melhor?

Eles são bastante versáteis e funcionam bem com pratos de média intensidade, culinária vegetariana, especiarias suaves e receitas com textura mais marcada.